Partir e Pertencer: A Jornada de Imigrantes

O que faz algumas pessoas acreditarem que nosso lindo planeta é dividido por fronteiras rígidas, com lugares onde certos indivíduos não podem viver ou sequer entrar? Quando a sociedade vai entender que diversidade, união e inclusão impulsionam a evolução? Por que ainda somos, como coletivo, tão territorialistas e nacionalistas?

Brigar por fronteiras e diferenças só causou dor e destruição ao longo da história. A migração e o multiculturalismo são partes essenciais da nossa jornada humana compartilhada, e ainda assim continuam sendo fonte de conflitos, estigma e preconceito.

Sou imigrante, e muitas vezes reflito sobre isso porque não consigo imaginar um mundo em que eu não pudesse explorar meu próprio planeta, me apaixonar por outra cultura, outro país ou por uma pessoa de outro país e construir uma vida no lugar onde sinto que realmente pertenço.

Por que eu migrei?

As pessoas migram por diversos motivos. O meu foi seguir meu coração e buscar uma vida melhor. Na América Latina, crescemos imersos no “sonho americano” (embora o certo fosse dizer sonho norte-americano, já que eles parecem ter se apropriado do nome do continente inteiro). Esse sonho é especialmente forte quando se cresce em meio à desigualdade e à pobreza.

Eu cresci em uma favela no Brasil. Não era pobre, mas vivia cercada de pobreza, falta de infraestrutura e acesso limitado à educação. Ao mesmo tempo, convivia com grupos mais privilegiados e testemunhei a desigualdade de perto. Transitei entre esses dois mundos, sempre buscando compreender mais e me dedicando aos estudos e ao autoconhecimento. Eu sabia que aquela realidade não era o meu destino. Queria explorar o mundo, ver o que havia lá fora e talvez construir uma vida melhor em outro país mais desenvolvido.

E foi isso que fiz. Viajei, participei de programas de intercâmbio, aprendi outros idiomas e ampliei minha visão de mundo. Essas experiências me transformaram na pessoa de mente aberta, inclusiva, respeitosa e otimista que sou hoje.

Estudando no exterior

Meu plano final sempre foi estudar no exterior. Como muitos que sonham em migrar, eu pensava primeiro nos Estados Unidos, mas após pesquisar bastante, percebi que não seria o melhor caminho. O crescente sentimento anti-imigrante, a incerteza após a formatura e os custos altíssimos me fizeram mudar de ideia e escolher o Canadá.

E logo me apaixonei pelo país. Diferente dos EUA, o governo canadense realmente acolhe imigrantes, especialmente os qualificados e formados, o que se encaixava perfeitamente nos meus planos. O processo estruturado e transparente de imigração após a graduação foi um grande incentivo. Eu sentia, no fundo da alma, que estava fazendo a escolha certa. E fui em frente. Compartilho mais sobre minha jornada de estudos e imigração nos posts: Faculdade no Canadá e Como imigrar para o Canadá.

Desafios que imigrantes enfrentam

Minha experiência no Canadá tem sido incrível: desde o acolhimento da comunidade até a eficiência do processo de imigração, com pouquíssimas exceções. Mas imigrar não é fácil. Há o peso emocional da saudade e as batalhas internas. Toda escolha vem acompanhada de uma perda, ora da mesma proporção, ora não. E apesar de toda a coragem do mundo para se aventurar em uma jornada fora de casa, cortar os laços com suas raízes e lidar com a distância nunca é simples. Às vezes você sente que não pertence completamente a lugar algum.

Quando se imigra na vida adulta, especialmente, carrega-se uma vida inteira de cultura, memórias e experiências, que é uma parte que nunca poderá ser substituída. Essa herança deixa um espaço dentro de nós que talvez nunca se preencha, mas também nos torna complexos e fortes.

Seguir os sonhos de viver no exterior e buscar uma vida melhor tem seu preço. Nós escolhemos pagá-lo, mas isso não significa que devamos esquecer de onde viemos. Todo imigrante deve ter orgulho das próprias raízes e celebrá-las. Elas fazem parte da nossa identidade e jamais poderão ser apagadas. As sociedades mais visionárias reconhecem que as origens dos imigrantes enriquecem sua cultura, seu conhecimento e suas perspectivas.

Conclusão

Voltando às minhas perguntas iniciais: ainda temos um longo caminho até alcançarmos uma mentalidade verdadeiramente aberta e inclusiva em escala global. Conforme evoluímos, entenderemos que a inclusão nos torna mais fortes. Até lá, tudo o que podemos fazer é resistir e continuar nos manifestando.

O show do intervalo do Super Bowl LX do Bad Bunny foi um exemplo perfeito disso. Ele celebrou a cultura latino-americana e mostrou o que significa abraçar suas raízes enquanto se conquista sucesso fora do país. Sou fã da música e do ativismo dele e me emocionei com a mensagem: está tudo bem migrar, prosperar e continuar honrando quem você é e de onde veio.

Source: QG.com | Kevin Mazur/Getty Images